Artigo Anais ABRALIC Internacional

ANAIS de Evento

ISSN: 2317-157X

JACINTO, UM PORTUGUÊS E DOIS CHINESES: A CULINÁRIA CRÍTICA DE EÇA DE QUEIRÓS E JOSÉ CARDOSO PIRES

Publicado em 12 de julho de 2013

Resumo

Este trabalho analisa a utilização da gastronomia na composição e na problematização das identidades dos personagens de duas narrativas: A cidade e as Serras, de Eça de Queirós, e o Conto dos Chineses, de José Cardoso Pires. Adotando como contraponto o choque culinário de identidades ― chinesa e portuguesa ― do conto de José Cardoso Pires, procura-se evidenciar a maneira como Eça de Queirós percebeu as mudanças da sociedade burguesa e do capitalismo, para estruturar e problematizar, literária e gastronomicamente, em As cidades e as Serras, as profundas contradições sociais e econômicas da sociedade e da identidade portuguesa. Beatriz Berrini (1995 e 1997), Maria José de Queiroz (2004) e Ana Luísa Vilela (2012) já enfatizaram a importância da gastronomia nas obras ecianas. Em quase todas elas, o escritor português procura concretizar as seguintes máximas que cunhou em artigo publicado em 1893, na Gazeta de Notícias: “dize-me o que comes, dir-te-ei o que és”; [cozinha e adega constituem ] “sempre um dos fortes, se não o mais forte alicerce das sociedades humanas” e “exercem uma tão larga e direta influência sobre o homem e a sociedade” (QUEIRÓS, 2000, V. III, p.1226). Essas afirmações ressaltam a intrínseca relação entre comida e sociedade e, em certa medida, ecoam tratados gastronômicos de época, como o Fisiologia do Gosto, escrito por Brillart e publicado em 1825, e antecipam reflexões de historiadores e antropólogos como Massimo Montanari (2004) e Richard Wrangham (2010), para quem os valores do sistema alimentar são resultado da representação dos processos culturais, e a relação humana com os alimentos se estabelece segundo critérios econômicos, nutricionais, simbólicos e sexuais. Utilizando as práticas gastronômicas como “matéria” de representação, Eça de Queirós observa as modificações de ambientes, etiqueta e de cardápio para (re)elaborar uma concepção crítica da sociedade portuguesa. Do seu primeiro romance realista até A cidade e as Serras, as características das cozinhas e dos cozinheiros se modificam e exigem um olhar diferenciado, mas o escritor de Os Maias continua a utilizar a culinária para criticar, com fina ironia, as singulares condições, perspectivas e limitações da sociedade portuguesa do final do século XIX. Na mesa de Jacinto, se concretizam os limites do capitalismo, o descompasso entre o ideal de grandeza e a pequenez cotidiana, a estereotipia do olhar destinado ao outro, o desconhecimento de si e a reificação das relações humanas. Esses elementos são também, no século XX, percebidos na pena de José Cardoso Pires, que, pela perspectiva do olhar popular, elabora gastronomicamente as mesmas limitações que Eça antecipava no século anterior.

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