Artigo Anais ABRALIC Internacional

ANAIS de Evento

ISSN: 2317-157X

O NÃO-TRABALHO NO ARRANJO NARRATIVO DOS CONTO DE MACHADO DE ASSIS

Publicado em 12 de julho de 2013

Resumo

Esta comunicação é parte de minha dissertação de mestrado que pretendeu, com a análise dos contos selecionados de Machado de Assis, descrever uma lógica da conduta narrativa que, articulada ao tema – o trabalho –, testemunhasse uma conduta social da realidade extraliterária. O corpus oferece enredos e personagens que discutem seu próprio sistema de crenças, segundo o qual trabalho não constitui valor, promovendo diferenciação, exploração e exclusão. A concepção do trabalho encontra-se justamente em sua ausência como elemento estrutural. O procedimento para esta proposta foi balizado, na medida do conto, pela análise de Roberto Schwarz (1990), em "Um mestre na periferia do capitalismo". A não explicitação do trabalho nos enredos configurou uma ausência significativa e a análise recaiu sobre as implicações estruturais contraditórias do quadro histórico-social do Brasil do século XIX firmado na escravidão, ambição liberal e clientelismo nos contos que abordam a temática do trabalho, mesmo obliquamente. Os contos agruparam-se segundo o universo socioeconômico de seus protagonistas; assim, estabeleceram-se três duplas: na primeira, Falcão (“Anedota Pecuniária”) e Fulano (“Fulano”) pertencem à categoria dos proprietários; na segunda, Porfírio (“Terpsícore”) e Camilo (“Jogo do bicho”) são homens brancos, livres, pobres, trabalhadores e endividados; na terceira dupla, os personagens vivem seus conflitos na intersecção dos planos socioeconômicos em “O empréstimo” e “O lapso”. Para esta comunicação, foi selecionado o capítulo “Quando a realidade é o desamparo, é melhor confiar na sorte”, que analisa os contos “Terpsícore” (1886) e “Jogo do Bicho” (1904)¸ cujos narradores são mais externos às histórias narradas. Observou-se que os narradores são mais confiáveis no sentido de não enredarem o leitor insidiosamente, do ponto de vista ético, filosófico, ideológico e/ou moral, pedindo seu aval para legitimar a narrativa e suas visões de mundo. Esses narradores, mais próximos do universo desassistido do trabalho, mostram os conflitos, ausentando-se, ao máximo, de partidos ou justificativas. O que resta da análise é uma aguda noção de destino que articula, ironica e impiedosamente, a sorte no jogo à determinação socioeconômica dos personagens. Apesar do temporário desfrute de autonomia, por meio da realização livre do desejo, os protagonistas são ludibriados pela ilusão de mobilidade econômica alardeada pelo jogo de azar. A determinação que marca a pobreza, a vulnerabilidade e a ausência de perspectivas dos personagens fala por si; a promessa ilusória de saída oferecida pelo jogo de azar não é páreo para o que Roberto Schwarz (1990) chamou de “ápice de frustração histórica” referindo-se ao trabalho sem mérito ou valor em plena era burguesa. Os contos operam um método que reproduz a lógica da pobreza. Outra distinção é o fato de que, não sendo os protagonistas a narrar, não se tem acesso à reflexão da própria pobreza acerca da ironia do destino. A escolha machadiana foi não dar voz à pobreza. Assim, o logro não está na conduta dos protagonistas, nem no discurso dos narradores, mas na própria trama; a própria lógica do enredo representou o destino implacável da determinação socioeconômica, em que a sorte, conquanto proporcione prazeres momentâneos, assume uma feição de zombaria cruel.

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