Artigo Anais ABRALIC Internacional

ANAIS de Evento

ISSN: 2317-157X

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0 “EU” E OS “OUTROS DE SI”: AUTOMEMORIOGRAFIAS EM ANARQUISTAS, GRAÇAS A DEUS, DE ZÉLIA GATTAI

Publicado em 12 de julho de 2013

Resumo

Pelo viés das memórias, Anarquistas, graças a Deus, livro de estréia de Zélia Gattai, narra episódios da infância da escritora-narradora, colocando em cena também detalhes da vida de familiares e amigos em meio ao cenário de modernização do Brasil na primeira metade do século XX. O foco narrativo desloca-se de si para o outro e vice-versa. Desta forma, o ponto de vista tanto pode ser marcadamente pessoal quanto pode sinalizar uma experiência coletiva, resvalando na fusão de elementos autobiográficos com outros de ordem coletiva e social. A obra supracitada constitui-se, portanto, um gênero híbrido: autobiográfico-memorialista. Interessa estudar os aspectos autobiográficos presentes em Anarquistas, graças a Deus, isto é, a escrita de si (ou dos múltiplos de si mesmo). O objetivo é evidenciar como a autora se utiliza de certos lugares-comuns da prosa autobiográfica, para instaurar uma promessa de “verdade” e “autenticidade” dos fatos por ela narrados, firmando assim um “pacto autobiográfico” com o leitor. Além disso, intenta-se discutir em que medida o discurso de Gattai escapa ao esforço de “apagamento” de uma multiplicidade de “eus enunciativos” e de construção de “efeito de realidade”. A leitura da obra permite vislumbrar algumas conclusões preliminares. A primeira delas aponta para o fato de que, por meio de uma memória voluntária, a autora se vale de elementos discursivos extra-diegéticos e intra-diegéticos para apresentar uma aparente unidade do eu que se enuncia e, por sua vez, firmar uma “vontade de verdade” para os fatos por ela narrados. A segunda conclusão ou, pelo menos, perspectiva de entendimento da obra, é que a escrita de Gattai, em certos aspectos, escapa a essa vontade de unicidade na constituição do self e “vontade de verdade”. Isto porque, dentre outras coisas, não há uma relação possível entre o “tempo do mundo da vida”, o “tempo do relato” e o “tempo da leitura”, para usar aqui das expressões cunhadas por Arfuch (2010). O eu enunciativo, nesse caso, passa a constituir-se nos múltiplos de si mesmo. A metodologia para a efetivação deste estudo consiste na pesquisa bibliográfica, a partir da qual serão tomadas como ponto de partida as leituras de Philippe Lejeune (O pacto autobiográfico) e Leonor Arfuch (O espaço biográfico). Ressalta-se que a obra emblemática de Lejeune será lida e interpretada numa perspectiva descontrutora, como forma de entender a obra tomada como objeto de investigação e análise. Esses são alguns aspectos para pensar o “eu” e os “outros de si”, as automemoriografias de Zélia Gattai em Anarquistas, graças a Deus.

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