Este trabalho tem por objetivo refletir sobre o conto “Meu tio o Iauaretê”, de João Guimarães Rosa, publicado em revista, pela primeira vez, em 1961 e, mais tarde, na coletânea póstuma Estas Estórias. Consideramos que o conto consiste em uma composição na qual se encontram traços regionalistas e espiritualistas, em evidência no momento de sua escrita, como afirmam Bittencourt e Lopes (2004), visto que se utiliza de uma linguagem característica da região onde a narrativa se desenrola, e de um personagem que se reveste de aspectos sertanejos, mas trata de um tema considerado nessa análise como sobrenatural, ou fantástico, presente na literatura universal: a metamorfose. Elegemos, dentre os diferentes níveis de análise, o olhar sobre a desumanização de seu personagem principal e a sua humanização. Ao nos afastarmos da concepção regionalista tradicional, é possível dialogar com outras metamorfoses da literatura universal, numa perspectiva comparatista diferencial (HEIDMANN, 2010; ADAM, HEIDMANN e MAINGUENEAU, 2010; ADAM, 2011), dentre as quais destacamos autores que, como Rosa, realizaram processos de experimentação na escrita, Ovidio, em suas Metamorfoses, e Kafka, com A metamorfose. Desta maneira, é possível refletir sobre a relação entre os homens e suas novas formas, não como um simples processo de desumanização, mas como um evidenciador da exploração de sua humanidade, dissociada dos padrões sociais, regionalistas ou não. Esta perspectiva pode se aproximar das reflexões de Deleuze e Guattari (1996, 2002), Blanchot (2005), Battaille (2010) e Barthes (1993).