Artigo Anais ABRALIC

ANAIS de Evento

ISSN: 2317-157X

FORMAS DE REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE PORTUGUESA DO FIM SÉCULO XX NOS ROMANCES DE JOSÉ SARAMAGO E ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Publicado em 20 de dezembro de 2012

Resumo

"Levantado do chão" foi escrito por José Saramago como resultado de uma estadia do escritor numa propriedade rural do Alentejo. É um livro, que sendo a história de luta dos camponeses e do seu processo de libertação dos grandes proprietários de terras, conjuga para a ideia de levante em várias instâncias sociais ao redor do mundo: seja a libertação das mulheres do jugo masculino, a dos colonizados do jugo dos colonizadores, a dos subservientes ao jugo da ditadura. Pela época em que foi publicado, Lobo Antunes, retornado da experiência da Guerra Colonial em Angola, publica "Os cus de Judas", livro que é também um levante de consciência acerca dos limites criminais dos projetos de colonização. Mais que coincidências temporais, dos gestos de escrita e aproximações de linhas temáticas ou as oscilações e os trânsitos de tipos linguísticos apontados no primeiro romance e a abertura descondicionada e indisciplinada da narrativa do segundo, em ambos ganham contornos a preferência ficcional pelos procedimentos narrativos miscigenados e uma escrita que cumpre o interesse de reavivar o pacto entre ficção e realidade, num período em que o excesso de inovações conduzia o romance português para uma dissolução perigosa. Estes encaminhamentos fundam esta comunicação que objetiva entender como a literatura de José Saramago e a de Lobo Antunes representam a realidade portuguesa, sobretudo, a dos fins do século XX. A proposta se guia pelos pressupostos metodológicos de Erich Auerbach (2009) e elabora uma leitura de viés comparativo que busca um não-reducionismo das duas manifestações literárias, isto é, não é nosso propósito uma mera marcação de fatos históricos e sua verificação na costura dos textos escolhidos, mas buscamos, no movimento de leitura dos romances e nas relações assumidas entre eles, as relações essenciais que venham manter com o contexto histórico a que se referem. Como possíveis encaminhamentos podemos distinguir que, se ao primeiro escritor interessa as formas de representação da história, ao segundo interessa a representação subjetiva; enquanto um reúne esforços para alcançar o cerne das descontinuidades dos materiais históricos, o outro quer alcançar o cerne do pensamento verbal, lugar desistoricizado, lugar em que tudo vem antes de tudo. O esforço comum aos dois, entretanto, está no modo como o tempo histórico é apreendido nos romances, que aqui poderíamos entender como, a história em processo paralelo e a história em processo internalizado à obra literária. No primeiro, a história adentra e ventila o romance, no segundo, adentra e se dilui. O resultado é duas visões distintas sobre a realidade, embora, ambas estejam localizadas num território em comum: o da necessária reinvenção, característica peculiar do gesto artístico na literatura.

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