A Educação Emocional, outrora circunscrita a debates periféricos e frequentemente confundida com iniciativas pontuais de bem-estar, vem adquirindo centralidade nas discussões contemporâneas sobre educação, subjetividade e vida social. Esse movimento não é fortuito: ele responde às complexas demandas de um tempo marcado pela intensificação das vulnerabilidades humanas, pela reconfiguração das práticas educativas e pela necessidade urgente de pensar a formação integral como experiência ética, estética e política.
Em meio a essas tensões, torna-se incontornável reconhecer que a ideologia neoliberal, ao infiltrar-se nos discursos e práticas escolares, tende a mecanizar e tecnicizar o sujeito, reduzindo-o a um conjunto de competências performáticas e mensuráveis.
Nesse contexto, o humano é convocado a alinhar-se a metas, índices e protocolos que desconsideram a densidade afetiva da existência, transformando a escola em espaço de constante vigilância e produtividade. A centralidade atribuída às avaliações externas e às políticas educacionais orientadas por resultados, frequentemente inspiradas em modelos gerenciais importados do setor empresarial, reforça uma lógica tecnocrática que reduz a complexidade dos processos formativos a indicadores numéricos, rankings e metas de desempenho.
Tais políticas, ao priorizarem métricas padronizadas e currículos prescritivos, tornam-se cúmplices de práticas pedagógicas que privilegiam competências operacionais em detrimento da formação integral, limitando o papel da escola à preparação para testes e ignorando a riqueza emocional, cultural e social que compõe a vida dos sujeitos.
Nesse cenário, as diferenças são tratadas como desvios a serem corrigidos, e não como expressões legítimas da pluralidade humana. Estudantes que não se encaixam no modelo idealizado, seja por trajetórias diversas, ritmos distintos, contextos de vulnerabilidade ou modos singulares de ser, estar, sentir e aprender, acabam excluídos simbolicamente por políticas que prometem equidade, mas reforçam desigualdades estruturais.
Interpelar essa lógica é reconhecer que a Educação Emocional não emerge como adendo periférico às práticas escolares, mas como crítica contundente a uma racionalidade pública que esvazia o sentido da educação, reafirmando que formar sujeitos não é treiná-los para performar, mas acompanhá-los na construção sensível, ética e plural de modos de existir.
A Educação Emocional emerge não como contraponto ingênuo, mas como resistência crítica: ela afirma a centralidade das emoções, da sensibilidade e da experiência compartilhada, devolvendo à educação sua tarefa essencial de humanizar, cultivar vínculos e possibilitar que cada sujeito exista para além das engrenagens que tentam reduzi-lo. Educar emoções não significa domesticá-las, mas reconhecê-las como parte constitutiva da condição humana, como campo de sentido e como linguagem que traduz, tensiona e reinventa a relação dos sujeitos consigo, com o outro e com o mundo.
É nesse horizonte que o Grupo de Trabalho Educação Emocional do CONEDU se consolidou como espaço de encontro, investigação e criação. O expressivo número de submissões desta edição – mais de 150 trabalhos, advindos de diferentes regiões, campos disciplinares, perspectivas teóricas e experiências formativas – evidencia a vitalidade do tema e o desejo coletivo de compreender as emoções não apenas como objeto de estudo, mas como potência formadora.
Nesta pluralidade, convivem pesquisas sobre saúde mental, práticas docentes, metodologias ativas, arte, esportes, espiritualidade, infância, juventude, vulnerabilidades sociais, tecnologias, currículo, inclusão e tantos outros caminhos epistemológicos-teóricos- metodológicos que mostram que a Educação Emocional não cabe em delimitações rígidas: ela transborda.
Os trabalhos aqui reunidos ampliam essa tessitura ao revelar que educar emocionalmente é cultivar um exercício contínuo de presença, escuta e responsabilização. Cada pesquisa, relato, intervenção pedagógica, análise reflexiva ou proposta metodológica parte de um lugar singular, mas converge para um compromisso comum: compreender como os afetos atravessam o cotidiano educacional e como podem produzir modos mais éticos, dialógicos e humanizadores de existir com os outros na escola, na família e em tantos outros espaços-tempos. Assim, o GT reafirma sua vocação como lócus de acolhimento e rigor acadêmico, no qual a sensibilidade não se opõe à ciência, mas a ela se articula como dimensão epistemológica.
Que este e-book, portanto, possa testemunhar a potência das ideias, das práticas e das vivências que se inscrevem no campo da Educação Emocional. Que ele inspire outras pesquisas, outras vozes, outras experiências que reconheçam, nas emoções, um terreno fértil para pensar a educação como processo integral, dialógico e comprometido com a dignidade humana. E que, ao celebrar a pluralidade dos trabalhos aqui apresentados, reafirmemos que sentir, compreender e transformar são movimentos inseparáveis na construção de uma educação mais justa e profundamente humana.